Hoje acordei com os "pés de fora". Tive um sonho que mais parecia um pesadelo (desde criança que eu me lembro quase todos os dias do que sonhei, mas isso é assunto para outro post). Estou nervosa, irritável e chorona. Para melhorar o estado, fui falar com a educadora da Mariana (parece que não tinham percebido que a criança não pode dormir mais do que meia hora na sesta da tarde, senão à noite não tem sono). Como estavam expostos desenhos do primeiro dia de aulas (tema: férias), decidi procurar o da Mariana. Todos tinham uma ou duas figuras humanas desenhadas, com uma flor ou uma casa, excepto o da Mariana. Ela anda na fase de desenhar figuras humanas, mas também de preencher os desenhos com outros elementos. Pois bem, o desenho dela, para além duma casa que se percebia bem, estava cheio de flores, animais e outras coisas que só ela consegue decifrar. Problema: a educadora dela não é muito sensível à diferença. Infelizmente ela já passou por uma situação muito desagradável por causa de ser diferente no comportamento. Como é uma criança muito tímida foi a certa altura apelidada de "imatura". Mais tarde passou a "imatura socialmente" e depois a "criança muito doce". Quando é apenas tímida e ponto final. E quando as educadoras estão lá para a estimular nesse sentido. Quero lá eu saber se ela sabe os números, se escreve algumas palavras, se consegue contar e fazer algumas contas. Tem tempo. Acabou de fazer 4 anos. E sinceramente, eu tal como ela, também fazia contas aos 4 anos, sabia letras e números, etc. Sou mais feliz por isso? Não. Antes pelo contrário.
Nós pais queremos que os nossos filhos nasçam a andar, a falar e a contar. Também cometo muitas vezes esse erro. Depois "caio em mim" e penso naquilo que sou hoje e no que já fui. Uma criança sempre preocupada, (super)exigente comigo e com os outros. Incapaz de pensar em errar. Com dificuldades em lidar com a frustração. Transformei-me numa adulta ainda mais perfeccionista. Ansiosa. E quando olho para a minha filha mais velha, revejo-me nalguns traços. Que não quero que ela tenha. Pode herdar de mim a vontade de viver, a felicidade que encontro mesmo nas pequenas coisas, a inocência, a vontade de querer sempre o melhor para os outros, mas nunca a faceta de querer sempre mais, de andar sempre a mil, de viver amedrontada com determinadas coisas. Quero uma criança que brinque muito e não seja um adulto em miniatura. Como eu sempre impus a mim própria. E é isso que tenho tentado fazer na educação delas. Tudo tem o seu tempo e eu tenho tentado respeitar isso.
Mas voltando aos desenhos. Eu conheço muito bem a educadora dela. Sei que ela deve ter olhado para o desenho dela e mais uma vez a deve ter discriminado. O desenho está bonito. Colorido. Cheio. À maneira dela. Não é esse o problema. É a diferença. Que infelizmente não é muito bem aceite por nós. E eu não quero fazer uma tempestade num copo de água, mas também não quero que se passe, como aquando daquela situação de chamarem imatura à Mariana, só porque ela é tímida. Depois disso, com uma distinta "lata" disseram-me: "Sabe mãe, a Mariana já está muito melhor. Temos andado a puxar mais por ela e já anda mais confiante, mais alegre. Como ela estava sempre tão caladinha, nós achávamos que ela estava bem e se calhar desprezámo-la um bocadinho."
Ou seja, a minha filha, que em casa é um poço de alegria, de sorrisos e boa disposição, lá era completamente diferente. Parece que só na dança criativa é que ela saltava, dançava e sorria. A professora da dança até disse à educadora que a Mariana era das meninas mais alegres que conhecia. E porquê? Porque adora dançar. Sente-se no mundo dela. Tal como em casa.
E eu vir a saber que ela durante o primeiro período foi desprezada, foi muito duro. Chorei muito, naquela noite. Escrevi uma carta à educadora, para ser contida nas palavras e não dizer tudo o que me apetecia dizer-lhe. Telefonei a pedir uma reunião. Até a directora da escola veio falar comigo e assinou a carta que eu tinha escrito. Foi grave. Muito grave. Passaram a tratar-me doutra maneira. Que não me deixou mais confortável, porque não gosto de ser apaijada. Mas pelo menos começaram a estimular a Mariana a fazer recados, a participar mais, a perder receios e timidez. Aquilo que sempre deviam ter feito a uma criança de 3 anos que se revela tímida. Alguém que percebe destes assuntos me dizia que timidez não é melhor nem pior que extroversão. Mas o que interessa é que ela passou a sorrir mais, lá. Embora sempre tenha gostado de lá estar, de repente passou a sentir-se em casa. E notou-se essa diferença em muitas reacções. E como é que uma mãe reage quando se apercebe que a filha foi desprezada? Não sei. Mas eu reagi assim: chorei. Mais tarde revoltei-me. Perdoei mas não esqueci. E ao mínimo pormenor, tenho uma "recaída". Vê-la ao colo da educadora, enquanto ela lhe dava mimos, não foi fácil para mim no início. Parecia-me fingimento. Mas o tempo cura tudo. Sim. Fui esquecendo e hoje até já consigo falar disso.
Mas assalta-me o medo que se volte a repetir-se a situação. A minha filha passa lá muitas horas e quero muito que esteja bem. Acima de tudo, educo-a para a felicidade. Venha essa felicidade, donde vier. Seja ela pastora, médica ou astronauta. Seja ela a mais inteligente ou até um pouco desligada. Queira artes ou ciência. Não queira nada disso. Queira ser apenas mãe. Ponto. Que saiba viver e ame fazê-lo. Que cresça integra. E feliz. Atingir a felicidade e viver na sua plenitude é o que uma mãe mais deve querer para um filho. Pelo menos para mim, é.
Hoje já chorei. Por ela. Que (a maior parte das vezes) só me faz sorrir. A minha menina doce. Que escreve com as duas mãos, com a mesma facilidade. Que desenha "pespectivas" (perspectivas). Que dança feliz. Que nos diz a toda a hora que nos ama. Que diz que quando crescer vai escrever e pintar. Mas que é demasiado tímida. Que se orgulha de já ter 4 anos. E convence todos que daqui a três dias vai fazer 5. Que ainda guia os acontecimentos da vida dela pelas estações do ano. Que é diferente mas não assim tanto.
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